De Eduardo Affonso

Do sempre ótimo Flavio Gordon, através da sempre ótima Aninha Franco.

O Flávio usou uma metáfora do boxe: “sentiram o golpe”. Eu usaria uma metáfora do mar: sentiram a mudança dos ventos.

Aninha Franco está com Ana Castro.

Flávio Gordon em Sentiu,

“Down goes Frey-sha, down goes Frey-sha, down goes Frey-sha” (Howard Cassel, locutor de Foreman vs. Frazier, em célebre narração do primeiro knockdown da luta),

– Galvão?
– Diga, Tino.
– Sentiu.

Se você, leitor, costuma assistir ao futebol na Rede Globo, é bem provável que já tenha topado com o diálogo acima. Sua ocorrência remete às ocasiões em que, durante as transmissões, o ex-repórter de campo Tino Marcos queria informar ao locutor Galvão Bueno sobre a contusão de um jogador.

Na bem-humorada cultura internética brasileira, o diálogo virou metáfora para o ato de acusar o golpe em tretas de rede social. Quando, no decorrer de um debate, uma das partes deixa transparecer raiva, diz-se que ela “sentiu” – à maneira do jogador contundido de que falava o repórter.

Usar “acusar o golpe”, aliás, é explicar uma metáfora esportiva por outra. Notadamente associada ao boxe, essa segunda expressão descreve a manifestação involuntária de dor ou atordoamento de um pugilista atingido por golpe do adversário. Para o leitor não familiarizado com o pugilismo, recomenda-se ver no YouTube, por exemplo, as imagens da luta clássica de 1973 entre Joe Frazier e George Foreman, em que o semblante do primeiro traduz o sentido literal de “acusar o golpe”.

Introduzo essas referências desportivas para falar da reação de parte da nossa imprensa ao acontecimento da semana: o monólogo iconoclasta e politicamente incorreto do humorista Ricky Gervais na abertura do Globo de Ouro 2020. Quanto a isso, não resta dúvida de que, por partilhar da visão de mundo ali ridicularizada – que, em artigo recente para esta Gazeta do Povo, Jones Rossi descreveu como “cultura woke” –, a nossa classe jornalística sentiu e acusou o golpe.

Na seção de cultura do Estadão, um tal de Guilherme Sobota publicou matéria intitulada “Globo de Ouro 2020: Ricky Gervais fez fraco discurso de abertura”, em cujo último parágrafo se lê: “Em geral, o discurso foi fraco, mas Gervais disse mais de uma vez que não se importava com aquilo tudo e que definitivamente seria sua última vez. A essa altura, ainda bem”.

Estamos diante de um sintoma característico da corrupção contemporânea da linguagem, que, no ambiente midiático, já não serve para se referir à realidade exterior, mas para exprimir os estados subjetivos dos jornalistas. No caso em questão, o autor da matéria demonstra certa dificuldade com o sentido da palavra “fraco”. Porque, mesmo no caso de quem o detestou, o monólogo de Gervais poderia ser descrito por um sem-número de adjetivos ao gosto do freguês: “perverso”, “vil”, “agressivo”, “nojento” etc. A julgar pelas reações apaixonadas que gerou, todavia, “fraco” é tudo o que ele não foi.

Goste-se ou não da fala do humorista britânico, deve-se reconhecê-la como um gancho certeiro no queixo do politicamente correto. Ao ignorar esse dado da realidade, o jornalista dá a impressão de que, ferido em seu próprio conjunto de valores, teve um impulso incontrolável de espernear. Comprometido, todavia, com o fetiche da “isenção” que hoje domina as redações de jornal (e que, nesse ambiente, tende a ser mais valorizado que predicados como autenticidade e honestidade), terminou a duras penas se saindo com esse “fraco” – espécie de muxoxo ressentido usurpando o lugar que, por direito, deveria ser o de um palavrão ou um urro de dor. Enfim, sentiu.

Na Folha de S.Paulo, Ricky Gervais foi criticado por um sujeito de nome Tony Goes, que repudiou a “agressividade” e “falta de graça” do comediante. A exemplo do colega do Estadão, Goes confessou alívio com a certeza de que, nos próximos eventos cinematográficos do ano, o bárbaro não estaria presente para escandalizar a pequena e aconchegante província dos progressistas politicamente corretos. “Ainda veremos várias vezes quase todos os presenteados do Globo de Ouro nos próximos dias” – escreveu o suscetível jornalista. “Domingo que vem (13) acontece a entrega dos Critic’s Choice Awards; mais para o fim de janeiro, é a vez dos prêmios do SAG, o sindicato dos atores. A culminação é no dia 9 de fevereiro, com o Oscar. Felizmente, Ricky Gervais não estará em nenhuma dessas festas”. É. Parece que sentiu.

Como não podia ficar de fora do festival progressista de lamúrias, o portal G1, das Organizações Globo, também dedicou uma matéria ao caso. Matéria, aliás, cujo conteúdo não tem relevância alguma, pois que mero pretexto para a existência da manchete – “Ricky Gervais causa polêmica no Globo de Ouro com piadas sobre pedófilos, Estado Islâmico e Yoda” – e do lead: “Ele foi criticado por ser ofensivo em seu monólogo de abertura na premiação”.

Sobre o recurso à “polêmica”, não há muito o que dizer. A essa altura, todo mundo já sabe que os nossos jornalistas empregam a palavra invariavelmente para se referir a opiniões e pessoas que os desagradam, e contra as quais, portanto, desejam prevenir o leitor. Nesse sentido, verdades óbvias e de senso comum (tal como a de que um homem vestido de mulher não é uma mulher de verdade) tornam-se “polêmicas” logo que proferidas.

O interessante mesmo está no lead: “Ele foi criticado”. Eis aí a técnica de manipulação jornalística – uma espécie de “pickpocket” linguístico – que costumo chamar de intransitividade maliciosa. O texto não diz por quem Gervais foi criticado. E não há qualquer referência aos inúmeros elogios recebidos, que poderiam perfeitamente justificar uma redação no sentido oposto: “Ele foi elogiado”. O redator escreve como quem reportasse um fato objetivo da natureza, quase um fenômeno meteorológico. “Foi criticado” tem aí o mesmo sentido de “Chove!” ou “Faz sol!” – constatação universal diante da qual, ao leitor, não restaria alternativa senão a de se curvar. Conclui-se que os responsáveis pela matéria jamais pretenderam noticiar críticas ao humorista. Pretenderam, isso sim, suscitá-las.

Em suma: sentiram.