A obtenção criminosa de conversas privadas entre agentes da Justiça e o vazamento destas revela uma estratégia conhecida: intimidar os procuradores e juízes que têm obtido êxito em inverter a lógica de que a Justiça só funciona contra o pobre.

Quem não sofre de indignação seletiva certamente lembra-se do caso do caseiro Francenildo Costa.

Durante o primeiro governo Lula, Roberto Jefferson denunciou o Mensalão, esquema que pagava uma mesada a deputados para votarem em projetos de interesse do Governo.

Nesta fase, em 2006, quando aprofundavam-se as denúncias e as investigações do Mensalão, um tal de Francenildo Costa, caseiro do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, teve seu sigilo bancário quebrado, sob a acusação de ter recebido dinheiro para incriminar patrão.
Depois constatou-se que o dinheiro encontrado na conta do caseiro era legítimo, fruto de um acerto entre ele e seu pai biológico para não levar adiante um processo de paternidade. Mas o dano à imagem de Francenildo já estava feito.
Dez anos depois, Palocci foi investigado pela Lava Jato, julgado, condenado e preso.
Precisou-se de dez anos, mais o desaparelhamento do Estado petista, para que a Justiça fosse feita, e Palocci pagasse por seus crimes e começasse inclusive a denunciar os comparsas da organização criminosa de que ele fazia parte e que era chefiada por Lula.

O bandido era o Palocci. Mas o pobre foi o escaneado.
O pobre denunciou seu chefe que fazia reuniões em que negociava propinas e vantagens, e foi devassado por isso.

Francenildo era o honesto. Mas era Palocci quem vestia o manto da santidade, o terno do colarinho branco.

Agora a história se repete: Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, MPF e a Lava Jato em geral, são atacados, pasmem, pelos mesmos agentes que acusavam Francenildo.
A Lava Jato e seus integrantes são chamados de vilões pelos bandidos que investiga.
Eles batem no peito, levantam a mão em punho e bradam inocência.

Mas em alguns anos se “descobrirá” que essas mãos estão bem sujas, e que a Lava Jato representava o lado bom, enquanto seus detratores, o lado mal.

O Ministro Sérgio Moro publicou um tweet repudiando a obtenção criminosa de mensagens privadas trocadas entre agentes da Justiça
O Ministro Sérgio Moro publicou um tweet repudiando a obtenção criminosa de mensagens privadas trocadas entre agentes da Justiça