Por Flávio Gordon.

JORNALISMO PROFISSIONAL Flavio Gordon“Os conflitos internos ao campo jornalístico – ou, em outros termos, a luta por hegemonia – permitem vislumbrar a produção de reportagens à contracorrente, que se insinuam pelas frestas do sistema: tal é o sentido de ‘pensar contra os fatos’, dotando-os de uma interpretação capaz de ajudar a promover um novo senso comum” (Sylvia Moretzsohn, professora de Jornalismo e colaboradora do Observatório da Imprensa, em Pensando contra os Fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico).Há cerca de dois anos, publiquei aqui na Gazeta um artigo intitulado “A regra de ouro de Gioconda Brasil: Trump e a imprensa brasileira”. Referia-me, então, ao comentário proferido pela jornalista da Globo por ocasião da corrida eleitoral americana de 2016. “No Brasil, não existe cobertura das eleições americanas. Existe torcida pela vitória de Hillary Clinton”, tuitou Gioconda em 20 de outubro daquele ano, com realismo e franqueza raríssimos em seu meio profissional.No artigo, mostrei como a postura antiprofissional do jornalismo autoproclamado profissional foi mantida ao longo de todo o governo Trump. Citei, como exemplos daquela torcida apaixonada, o colapso nervoso de Arnaldo Jabor, dizendo-se “doente” com a vitória do candidato republicano, e o faniquito de Lucas Mendes, choramingando feito uma adolescente sentimental na edição pós-eleição do programa Manhattan Connection: “Eu nunca imaginei que fosse terminar minha carreira falando em ‘presidente Trump’. É uma depressão terrível… A eleição de Obama foi um dos melhores dias da minha vida. Eu dei sorte de caminhar neste planeta junto com ele. E agora a eleição do Trump é um dos piores dias da minha vida”.Como poderia ser profissional o jornalismo realizado por uma imprensa formada por tipos humanos tão psicologicamente instáveis, para os quais a realização pessoal está condicionada ao triunfo ou fracasso das figuras políticas que deveriam cobrir, se não com isenção, ao menos com um mínimo de serenidade?Dois jornalistas experientes: um, histérico, adoecendo por conta de um resultado eleitoral; o outro, deprimido, classificando o dia do ocorrido como um dos piores da sua vida. Pergunto: como poderia ser profissional o jornalismo realizado por uma imprensa formada por tipos humanos assim suscetíveis, tão psicologicamente instáveis, para os quais a realização pessoal está condicionada ao triunfo ou fracasso das figuras políticas que deveriam cobrir, se não com isenção – na prática impossível, pois, naturalmente, todos têm as suas preferências –, ao menos com um mínimo de serenidade?Mas se engana quem pensa que os casos acima citados são excepcionais, pinçados estrategicamente por este escriba para emplacar o argumento. Estamos em novo ciclo eleitoral nos EUA e, com ele, ressurgem entre os nossos profissionais de imprensa as mesmas efusões arrebatadoras de paixonite político-ideológica.Eis o que, por exemplo, tuitou recentemente Míriam Leitão, outra jornalista da velha guarda: “Ontem eu assisti ao documentário Michelle Obama. Ela disse tanta coisa com que eu concordei, eu me senti tão confortável com o que ela é e pensa que pensei: eu já fui feliz, voltarei a ser”. E, após o ponto final, a ultraobamista coroou a postagem com o famigerado emoji da mãozinha em forma de soco.De novo, vemos um jornalista dito profissional condicionar a própria felicidade ao resultado das eleições americanas. E, se assim é com os sentimentos que os jornalistas não se vexam em confessar, imaginem com aqueles tidos por inconfessáveis (se é que, depois de um colunista do jornal de maior circulação do país torcer abertamente pela morte de Bolsonaro e de Trump, reste ainda algo de inconfessável no bas-fond das redações).Uma colega (profissional e ideológica) de Leitão, Vera Magalhães, tuitou sobre o debate entre os presenciáveis americanos: “Biden é lento demais pra [sic] lidar com essa metralhadora de infâmias, mentiras imposturas [de Trump]. A esperança é que o eleitorado perceba. Mas não funciona sempre assim”.A palavra usada foi essa mesmo: esperança. E, com efeito, o jornalismo “profissional” brasileiro é todo assim, feito de torcida apaixonada, anseios loucos, expectativas lancinantes, desespero, frenesi. Nessas condições, por óbvio, a prática da reportagem decente é virtualmente inconcebível. Assim como seria difícil apostar na eficiência de um cirurgião que, recém-chegado à mesa de operação, começasse a tremer de ódio visceral – ou, alternativamente, a palpitar de amor incontido – pelo paciente anestesiado à sua frente.O jornalismo “profissional” brasileiro é todo assim, feito de torcida apaixonada, anseios loucos, expectativas lancinantes, desespero, frenesiNo caso do jornalismo, a adesão política apaixonada, que se mistura com uma suscetibilidade pessoal patológica, só poderia mesmo resultar nessa cobertura enviesada e desonesta a que temos assistido, na qual notícias sobre o candidato odiado (Donald Trump) são distorcidas ou mesmo inventadas; e notícias inconvenientes sobre o candidato do coração (Joe Biden) são amputadas ou simplesmente suprimidas. Como tenho dito, pior que as fake news – que, de resto, a imprensa dita profissional também produz em larga escala – são as semi news e as no news at all…Vejam, por exemplo, o caso do escândalo do laptop de Hunter Biden, filho do candidato democrata Joe Biden, noticiado inicialmente pelo New York Post, e que, entre outras coisas, sugere relações indecorosas entre o então vice-presidente de Barack Obama e altos quadros do Partido Comunista Chinês, possibilidade que, inclusive, motivou o The Wall Street Journal a cobrar explicações em seu último editorial. No Brasil, o escândalo foi nada menos que acobertado por quase toda a imprensa – que, portanto, trai a boa fé do público, distorcendo-lhe a percepção dos fatos e induzindo-o a formar opiniões sem fundamento na realidade. Houve, inclusive, colunistas comemorando abertamente a decisão político-partidária tomada pelo Facebook e pelo Twitter, que, cruzando de vez o Rubicão entre a normalidade e a distopia totalitária, resolveram censurar a notícia na internet.Compreende-se. Aos habitantes de um planeta mental segundo o qual não há ninguém de esquerda nos EUA e o Partido Democrata é de direita, cabe recorrer a todos os meios possíveis para impedir que o público consumidor de notícias tenha algum contato com o planeta Terra. Afinal, desse alienamento cósmico depende o seu sustento. Produzi-lo e mantê-lo é a sua profissão. Donde: jornalismo profissional.

Flávio Gordon é doutor em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ) e autor do best-seller A Corrupção da Inteligência: intelectuais e poder no Brasil (Record, 2017).